Escrevivência, oralituras e o afeto em medida oceânica nos discos de Luedji Luna
“O que no corpo e na voz se repete é também uma episteme” – Leda Maria Martins, 2021
No final de maio, Luedji Luna lançou o quarto álbum de sua carreira, intitulado “Um Mar Para Cada Um,”. De acordo com a artista, o disco encerra uma trilogia iniciada em 2020 com o lançamento de Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água (2020) e sua versão deluxe. Nestes trabalhos, a água é o elemento fundamental utilizado pela cantora baiana para construir metáforas e fabulações sobre experiências afetivas. Imensidão, fluidez, densidade, deriva, emergir e submergir, molhar, morrer de sede, ser oceânica. Todas essas dimensões são expressas nos arranjos musicais, composições, performances, videoclipes, featurings e entrevistas realizadas por Luedji nos últimos anos.
“Fiz esse disco para investigar, para além do meu desejo, a minha carência, que gera essa busca incessante. Ele surge para que eu possa curar minha versão do passado que inventava amores, pois era a única maneira de habitar o amor, e para que eu compreenda que eu sou digna de ser amada porque, assim como qualquer ser humano, sou um ser divino”, afirmou Luedji Luna em entrevista à Rolling Stone Brasil.

Créditos: Henrique Falci/Divulgação
Em toda sua carreira artística, Luedji deixa evidente que um dos seus objetivos é apresentar às mulheres negras diferentes narrativas e formas de vivenciar o amor. Não apenas o amor romântico, mas o amor que fala das relações e das alianças afetivas, da amizade, e sobretudo da potência presente no amor próprio, que parte de um lugar de segurança pouco ou quase nunca experimentado pela grande maioria das mulheres negras.
Por isso, olhar, ouvir, experienciar e sentir as produções e manifestações artísticas da cantora não é apenas um momento de contemplação, mas também um exercício didático e afetivo de autopercepção e autoconhecimento. É óbvio que Luedji não é a primeira nem a única artista a causar esse efeito, mas é fato que, pelo menos para mim, ela é uma das mais certeiras em produzir, traduzir e transformar as experiências de vida de mulheres negras em/pela canção.
Por isso, sempre que me deparo com um novo álbum de Luedji Luna penso na potência da escrevivência de Conceição Evaristo que, para a autora, é um ato que referencia o Abebé de Iemanjá ao revelar a nossa potência coletiva enquanto mulheres negras e nos conscientizar de que “somos capazes de escrever a nossa história de muitas vozes”. (EVARISTO, 2020, p.39). Escrevivências que não estão presentes apenas na escrita, e “não se dão apenas pelo alfabeto, mas se dão pelo corpo, pelo gesto, pela voz, pela expressão” (ibid., 2017).
Há também nas composições de Luedji um constante movimento de referência a outras mulheres negras. A exemplo disso está a faixa “Baby Te Amo”, que encerra o seu quarto disco. A faixa é um poema póstumo da historiadora Beatriz Nascimento recitado por ela mesma graças a uma tecnologia de Inteligência Artificial, junto a uma melodia de sopro que acompanha a voz da ativista negra.
No transparente véu de nuvens serenas
Além do ar e do vento
Todo o nosso sеntimento a favor da vida
Que cai em gotas dе chuva e fermento lacrimoso
Água pura, de cheiro, incolor
(Trecho da faixa “Baby Te Amo”)
Essa não é a primeira vez que a poesia é parte integrante das canções de Luedji, essa é na verdade uma característica marcante de seus discos. Lembro inclusive do relato de uma amiga que passou a ler Conceição Evaristo após ouvir a canção “Ain’t Go No”, presente no disco Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água.
Com isso, acredito que o trabalho da cantora baiana é uma chave importante para pensarmos as oralituras, proposta por Leda Maria Martins (2021), uma vez que expõe subjetividades que transitam e se inscrevem através de um corpo-tela[1] presentificado em temporalidades instáveis. Além disso, em seu modo de fabular e refabular modos de vidas e de experiências afetivas e amorosas para as mulheres negras, a cantora baiana desperta e expõe os afetos, que “podem ser compreendidos como a energia da mediação cultural catalisada em orientações, valores, humores, visões de mundo, emoções” (GROSSBERG, 2010 apud YU; FARIAS; GOMES; BARBOSA; MENDONÇA, 2022).
Poucos dias após o lançamento de “Um Mar Para Cada Um,”, Luedji Luna surpreendeu os fãs ao lançar seu quinto disco intitulado “Antes Que a Terra Acabe”. Uma obra que complementa o disco anterior, mas apresenta uma nova Luedji. A água segue sendo a protagonista das performances e composições presentes no disco, mas dessa vez divide espaço com a terra. Ambos os discos são marcados por fortes referências musicais do jazz e do R&B, com uma forte presença do piano e de instrumentos de sopro.
“Enquanto o primeiro disco ilustra minha busca por amar e ser amada, o segundo revela até onde eu posso ir para resolver essa carência […] Eu me mostro terrena, humana, ordinária”, disse Luedji Luna. Em sua jornada artística, a cantora baiana segue mostrando como a beleza pode ser um método para criar possibilidades no espaço do recolhimento, um ato de subsistência, como afirmou Saidiya Hartman. Além de evidenciar a potência das produções musicais em possibilitar articular os engajamentos identitários que dizem respeito às nossas ecologias de pertencimento (GOMES; ANTUNES, 2019).
Referências
GOMES, Itania; ANTUNES, Elton. Repensar a comunicação com Raymond Williams: estrutura de sentimento, tecnocultura e paisagens afetivas. In: Galáxia: São Paulo, online, Especial 1, Comunicação e Historicidades, 2019.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
YU, Wendi; FARIAS, Daniel Oliveira de; GOMES, Itania M. M.; BARBOSA, Karina; MENDONÇA, Carlos. Nelas, através delas, em suas memórias: estigma, afeto e religiosidade em ativismos transcestrais no brasil. Líbero, v. 25, p. 29-51, 2022.
[1] De acordo com Leda Maria Martins, o corpo-tela “se apresenta como repertório da memória ancestral e abrigo da temporalidade espiralar, nas quais pousa, com intensidade, uma sincronia de vozes”. Portanto, o corpo “torna-se ele próprio geografia, paisagem de dicções e enunciados, território de palavras pronunciadas” (MARTINS, 2021, p. 173) e “ambiente de saber e da memória, o que faz da superfície corporal, literalmente, texto, e do sujeito, intérprete e interpretante, enunciado e enunciação, conceito e forma, simultaneamente” (ibid, p. 175).