Madonna: de suas matrizes a novos fluxos audiovisuais

No último dia 24 de abril, Madonna lançou o primeiro single do seu novo álbum (Madame X), intitulado “Medellín” [1], uma parceria com o cantor colombiano Maluma. Nessa crítica, propomos analisar de que maneira o videoclipe dessa música permite observar elementos que configuram a trajetória da cantora, mas também quais características ela convoca ao se inserir em um entorno tecnocomunicativo (Martín-Barbero, 2009) marcado pela presença de fluxos audiovisuais e migrações populacionais.

 

O videoclipe foi dirigido pela diretora espanhola Diana Kunst e Mau Morgó (Fonte: Screenshot)

Com quase 40 anos de carreira, Madonna é reconhecida como a rainha do pop por ter estendido seu trabalho pelo mundo da música, cinema, televisão e moda de forma rentável por todos esses anos. Não só pelo lado financeiro, pois a artista sempre se inseriu em diversos debates sociais sobre questões de gênero, sexualidade e raça, tanto como questionadora de padrões quanto como alvo de críticas por reproduzir preconceitos. É nessa ambiguidade de sua persona que Madonna é conhecida por se reinventar. Seus trabalhos já foram do erótico e sexual ao country, Disco, rockeira, líder de torcida e agora se recria mais uma vez para uma personagem fictícia chamada Madame X.

 

Segundo a cantora, Madame X é uma persona que a religa às suas origens, o momento em que não se importava para o que a sociedade pensava do seu trabalho. A personagem teria a ingenuidade característica da juventude. As conexões com a sua carreira se mostram também em outros momentos. O prólogo do videoclipe de “Medellín” mostra a figura da cantora ajoelhada rezando com um terço na mão e recitando o que parece ser uma oração. A relação de Madonna com a religião vem da sua criação católica e da perda de sua mãe enquanto criança. O catolicismo foi explorado por Madonna artisticamente em várias canções marcantes de sua carreira como “Like a Prayer”, “Oh Father” e ficou marcado na cultura pop principalmente no documentário “Na Cama com Madonna” cujas cenas, consideradas chocantes com um crucifixo, marcaram a turnê da cantora no início dos anos 90. Em “Medellín”, ela parte desse lugar para construir a narrativa de um casamento colorido e festivo com o cantor colombiano, segundo a própria, para fazer o seu videoclipe parecer uma pintura.

 

Medellín é a cidade natal do cantor Maluma (Fonte: Screenshot)

Madonna iniciou sua carreira em Nova Iorque nos EUA e desenvolveu grande parte da sua trajetória ali. No início dos anos 2000, mudou-se para Londres, onde se casou com o diretor Guy Ritchie e passou grande parte da primeira década do século. Em 2017, ela acatou o desejo do filho de ser jogador de futebol, por isso decidiu ir morar em Benfica, Portugal, para que ele alcançasse seus sonhos. Madonna ironicamente brinca: “virei uma mãe de jogador de futebol que leva os filhos para a escola e para o treino todos os dias”. As cores e o estilo da música podem parecer estranhos para fãs mais puristas da artista, mas a grande influência para o seu próximo álbum vem dessa vivência em Portugal.

 

A relação da artista com influências latinas não é nova, em 1986, ela lançou a canção “La Isla Bonita” que foi uma primeira referência na sua carreira com esse estilo, algo percebido também pelos fãs, como mostra o comentário a seguir do vídeo de “La Isla Bonita” no YouTube[2]. O que mostra que mesmo se inserindo em fluxos audiovisuais da música pop latina, isso é transpassado por fluxos da sua carreira como é notado pelos próprios fãs.

 

(Fonte: Screenshot)

Na relação com a sua história, Madonna ainda retoma outro ponto crucial: sua articulação com a MTV. Junto a Michael Jackson e Prince, Madonna foi uma das artistas essenciais para o estabelecimento da linguagem do videoclipe como constituidora do que entendemos enquanto música pop. Para fazer o lançamento mundial do videoclipe de “Medellín”, Madonna se junta à MTV em uma entrevista coletiva com fãs de várias partes do mundo (NY, Milão, São Paulo e Londres) para que pudesse falar um pouco do projeto. Como aparece um tweet na tela enquanto a entrevista acontece que diz: “Que delícia viver os anos 90 novamente”, percebemos uma referência de quando videoclipes eram lançados oficialmente pela e na MTV e se tornavam grandes eventos midiáticos. Hoje no campo da música, os videoclipes se estabelecem principalmente na relação com o YouTube. Então, se nos anos 90 Madonna lançava seus videoclipes na televisão, hoje, Madame X preferencialmente os faz em um streaming por redes sociais.

 

A observação de alguns aspectos da inserção de Madonna nos permite notar que “Medellín” se insere na estratégia da cantora de se reaproximar do seu público latino. Três dos dez principais comentários no YouTube, plataforma em que o videoclipe foi publicado, eram em espanhol. Partes da música são cantadas nesse idioma e ainda há a presença de Maluma, cantor pop que tem feito parceria com diversas cantoras como Shakira, Iggy Azalea e Anitta.

 

Conforme Ferreira (2019) e Cardoso Filho et al (2017), os feats são estratégias e elementos culturais importantes para que compreendamos a configuração dos fluxos audiovisuais. Os artistas que recorrem aos feats justapõem audiências e sensibilidades distintas. No caso de Maluma e Madonna, vinculam, além dos fãs desses dois artistas, que não necessariamente são os mesmos, públicos de países diferentes. Compreensão referendada pelos comentários em espanhol.

 

Esses vínculos podem ser percebidos ainda em um vídeo anunciado como publicidade no Instagram. Nele, a cantora responde que seu novo álbum tem como objetivo mostrar que a música é universal, apelando para o fato de que não é necessário entender o que se canta para que uma música seja apreciada. Estamos inseridos em fluxos nos quais as determinações dessas plataformas – YouTube e Instagram – exercem, através de seus algoritmos, relações de poder que precisam ser observadas, na relação com as partilhas culturais dos fãs, sendo esses lugares de olhada para disputas que se estabelecem.

 

Madonna, como uma artista do mainstream, estabelece uma relação de desigualdade, tendo poder econômico para que seus vídeos circulem de forma mais dinâmica nesses fluxos, mantendo uma linha de influência que parte do norte desenvolvido para o sul. Mesmo que incorpore para esse fim outras estratégias, como o feat com Maluma, e a presença mais marcante da língua espanhola. “Medellín”, dessa forma, retoma características e estratégias de sua carreira, ao tempo em que procura inserir a cantora num fluxo audiovisual estabelecido que perpassa outros artistas, para sucesso comercial e relevância cultural. Veremos agora o que Madame X nos reserva com as parcerias com Anitta e outros artistas desse fluxo que ela almeja disputar.

[1] Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=xAxNaLAR2to

[2] Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=zpzdgmqIHOQ

Referências

 

CARDOSO FILHO, Jorge; FERREIRA, Thiago; AZEVEDO, Rafael José; MOTA JUNIOR, Edinaldo. Pabllo Vittar, Gloria Groove e suas performances: fluxos audiovisuais e temporalidades na cultura pop. Contracampo, Niterói, v. 37, n. 03, p. 81-105, dez. 2018/ mar. 2019. Disponível em http://periodicos.uff.br/contracampo/article/view/19455/pdf. Acesso em: 27 de jan. de 2019.

FERREIRA, Thiago. Transformações de políticas e afetos no Brasil: contextualizando radicalmente o acontecimento Junho de 2013 em fluxos audiovisuais. Tese (Doutorado em Comunicação e Cultura Contemporâneas) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas, Universidade Federal da Bahia. Salvador, 2019.

MARTÍN-BARBERO, Jesús. Jesus Martín-Barbero: as formas mestiças da mídia. Revista Pesquisa Fapesp, São Paulo, n. 163, set. 2009. Disponível em http://revistapesquisa.fapesp.br/2009/09/01/as-formas-mesticas-da-midia/. Acesso em: 13 de set. de 2014. Entrevista concedida a Mariluce Moura.

MARTÍN-BARBERO, Jesús. Prefácio à 5ª edição espanhola. Dos meios às mediações. Comunicação, Cultura e Hegemonia, 4ª, Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2008[1998].