
Estudantes da UFF em manifestação. Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil
Na segunda-feira pós primeiro turno das eleições brasileiras 2026, uma marcha vermelha tomou as ruas da Zona Sul de Niterói. Os estudantes da Universidade Federal Fluminense não aceitaram baixar a cabeça frente ao preocupante resultado das urnas e começaram a escrever o que viveríamos nas três próximas semanas: reorganizar o chão da esquerda, direcionar a luta… mas não só.
Não dá para negar, saímos assustados e desmobilizados dessa primeira rodada das votações. Em nossos horizontes, havia um culpado muito proeminente: as grandes empresas de tecnologia, em especial a empresa Meta – dona do Instagram, Facebook e Whatsapp. As acusações da baixa performance de conteúdo e do bloqueio das contas do campo da esquerda se juntou às reinvindicações contra o apoio explícito dessas empresas a candidaturas fascistas. Apontavam-se fortes indícios de uma tentativa de interferência nos resultados eleitorais, mas, sobretudo, havia um sentimento de impotência em face do poderio de grandes corporações bilionárias e estrangeiras. O que fazer diante de um adversário tão poderoso?
Esse sentimento que nos retrai e que amplifica o poderio dessas empresas pode ser articulado a uma ideia de determinismo tecnológico. Socialmente, tendemos a localizar a tecnologia como a causa das transformações culturais, então, o que explicaria a predisposição das pessoas em votar na extrema-direita no primeiro turno seria o uso de redes sociais. Esse é um caminho fácil para lidar com uma situação complexa e, no limite, esse determinismo pode se transformar em terrorismo tecnológico.
O sociólogo britânico Raymond Williams[i] critica essa visão e nos solicita a analisar o desenvolvimento tecnológico incorporado aos nossos processos culturais e sociais, pois toda tecnologia é criada a partir de interesses políticos e necessidades latentes de uma dada conjuntura. Para ele, através dos usos da tecnologia em práticas cotidianas podemos observar a reorganização de nossos processos sociais, o desenvolvimento de dispositivos institucionais, novas formas socioculturais e formatos técnicos.
Por esse caminho, a estratégia da esquerda brasileira para enfrentar o algoritmo e os bloqueios das redes sociais nessas eleições passaria necessariamente a operar o próprio algoritmo a partir das alianças de solidariedade, ocupando cada brecha que se apresentava na disputa pelo futuro político do Brasil. A imagem da onda vermelha fluminense passou a encher as nossas telas como um símbolo desse momento e o vigor para levantar a cabeça e reverter o resultado nefasto contagiou pouco a pouco cada um de nós. A luta passou a articular ruas e timelines.

Publicação de Jairme. Crédito: Reprodução X
Jairme, uma entidade de esquerda que habita distintas redes sociais, traçou a máxima: “não adianta ficar esperando a campanha fazer assim ou assado, se puder, faça você. Você tem um jeito de se comunicar único e que nenhum marqueteiro vai conseguir reproduzir”. A frase traduz a direção de ocupar todos os espaços públicos e, aqui, já falo de ambientes físicos e digitais em total articulação. Passeatas e manifestações orgânicas em pequenas e grandes cidades acompanharam um intenso compartilhamento de conteúdos pró-esquerda nas redes sociais. Vídeos, bandeiras, fotos, marchas, discursos e memes se fundiram e organizaram nossos afetos em prol de um projeto político de país que recusasse a extrema-direita.
Essa luta que articulou físico e digital de forma competente ancora a ideia de Jesús Martín-Barbero[ii] de que vivemos hoje num entorno tecnocomunicativo. Em linhas gerais, a dimensão física e geográfica desse habitat sociocultural é atravessada por redes e fluxos de pessoas, de imagens e de informações, que passam a constituir um outro ecossistema perceptivo e relacional. É nesse entorno que observamos a reconfiguração de nosso “sensorium”, em que o uso e partilha corrente das tecnologias informacionais reinscreve nossa percepção, memória e sensibilidade a partir das novas dinâmicas de comunicação.
Acredito que foi uma percepção partilhada: o resultado do primeiro turno fez a esquerda refletir sobre para qual direção levar a campanha da próxima rodada e conseguir uma virada inédita. Não dava mais para desenhar a nova campanha nos antigos termos de uma confiança na força da institucionalidade, de entregas na economia e de uma comunicação protocolar. A esquerda, portanto, revisita suas matrizes na panfletagem, nas manifestações descentralizadas, nas formas comunicativas marginais e no deboche caricatural para reinscrevê-las nas dinâmicas que o entorno tecnocomunicativo nos solicita, articulando o físico e o digital de forma intensa e constante.
Em seu exercício de cartografia em fluxo[iii] em distintas formas de ativismo no Brasil, o pesquisador Daniel Farias enfatiza que, apesar de haver uma certa similaridade entre as formas culturais do protesto (como as marchas, por exemplo), é necessário observá-las de forma articulada aos seus contextos, sejam eles governamentais, regimentais ou na disputa cultural. Em sua perspectiva, destaco que as mudanças nas experiências comunicacionais de ativismo estão intimamente conectadas às nossas mudanças culturais e sensíveis. Essa é uma leitura importante para resistir e lutar pelas transformações sociais.
Manhã de domingo, dia de eleição. Todos os bloqueios e sabotagens que enfrentamos nas redes sociais se materializaram em nossas ruas. Salvador, a capital que tradicionalmente dá vitória à esquerda na corrida presidencial, amanheceu sem ônibus, num suposto crime eleitoral perpetrado por sua prefeitura. A possível decisão do governo municipal soteropolitano contraria a resolução do Supremo Tribunal Federal (STF), que determina transporte gratuito em dias de eleição. Ao invés de se retrair, o povo mais uma vez enfrentou e criou uma rede de carona solidária. As pessoas que estavam há horas esperando por transporte puderam ir com carros de pessoas voluntárias, decididas a hackear o sistema.
E aqui, eu localizo a solidariedade como um grande afeto mobilizador desse segundo turno. Sua força e intensidade foi impulsionada por gestos solidários por quem viveu a Ditadura Militar, por quem lutou por eleições diretas e por uma nova constituição e por aqueles que sobreviveram à terrível pandemia de Covid-19, em 2020. Muitos foram os vídeos de pessoas que cruzaram o país e o mundo para depositar um voto, que levaram idosos e pessoas com deficiência até a cabine de votação, de crianças celebrando a vitória da esquerda.
Saímos de uma diferença negativa de pouco mais de 2 milhões de votos, para um salto positivo com mais de 4 milhões. Muito mais que o dobro. A solidariedade como afeto nos impulsionou a ir à luta política e a renovar nossas crenças na força da coletividade. Ela coloca em perspectiva que, por mais forte que nossos adversários sejam, é no coletivo que encontramos força. Nós jogamos e quebramos o algoritmo das ruas e das timelines, e percebemos que eles podem ser grandes, mas nós somos muitos.
Todo esse cenário me fez lembrar que a Dilma Roussef do passado já havia previsto o futuro, ou o hoje. Ela disse: “não vamos colocar meta. Vamos deixar a meta aberta, mas, quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta”. E nós dobramos a Meta! Lula reeleito para seu quarto mandato presidencial.

Lula em campanha pelo seu quarto mandato. Crédito: Paulo Pinto/Agência Brasil
Referências
[i] Williams, Raymond. Televisão: tecnologia e forma cultural. 1 ed. São Paulo: Boitempo; Belo Horizonte: PUC Minas, 2016
[ii] Martín-Barbero, Jesús. As formas mestiças da mídia. Entrevista a Mariluce Moura. Revista Pesquisa FAPESP, São Paulo [on-line], n. 163, 2009a. Disponível em: http://revistapesquisa.fapesp.br/2009/09/01/as-formas-mesticas-da-midia/.
[iii] FARIAS, Daniel Oliveira de. Fluxos ativistas e territórios: afetos e repertórios na configuração comunicacional de ativismos políticos no Brasil. 2025. Tese (Doutorado em Comunicação e Cultura Contemporâneas) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2025.