Dia desses zapeando no Instagram, me deparo com a publicação de um reels[1] da pesquisadora e professora haitiana Tania Pierre-Charles no perfil da Clasco (Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais), @clacso_oficial, em comemoração ao mês da mulher. No vídeo em questão, Tania fala sobre a experiência de mulheres negras acadêmicas na produção do conhecimento, sendo ela mulher e negra, em que “entrar na universidade não é pertencer, e pertencer não é transformar. Hoje, se enfrentam três grandes desafios (Pierre-Charles, 2026, s.p., tradução nossa). Para a pesquisadora, esses desafios incluem a exclusão institucional de corpos e saberes não-ocidentais, o pertencimento e a visibilidade condicionados à matriz ocidental e a justificação constante do que se pensa e de onde se pensa (Pierre-Charles, 2026).
As observações colocadas por Pierre-Charles no reels, ensejam questões que estão diretamente atreladas às lutas identitárias e políticas que envolvem a ampliação do acesso ao ensino superior público brasileiro, as políticas de ações afirmativas e as desigualdades estruturais no Brasil. A entrada de sujeitos negros, indígenas, de baixa renda e das populações LGBTQIAPN+ pelas ações afirmativas – mais especificamente a Lei de Cotas étnico-raciais (12.711/2012) – têm transformado o modo de produção do conhecimento nas universidades públicas? A universidade pública ter ficado mais diversa a partir da presença de estudantes cotistas, como argumentam pesquisas recentes (Cardoso et. al., 2025; Silva; Matos, 2025; Gomes; Silva; Brito, 2021), configura também uma transformação de sua estrutura? Podemos falar em outras possibilidades de mudança da universidade pública que não atravesse, necessariamente, as políticas de cotas?
O conjunto desses questionamentos, seja os colocados por mim quanto por Tania, atravessam minha própria posição no mundo como mulher, negra e acadêmica, ingressante no ensino superior público por via das políticas de ações afirmativas na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) quando ainda não havia sido implementado a Lei de Cotas em 2012. A UFRB, assumiu o compromisso com a diversidade de corpos desde a sua implantação em 2005, reservando vagas para estudantes negros e indígenas oriundos de escolas públicas, política da qual sou resultado. A UFRB integra um movimento de democratização do acesso ao ensino superior público com outras instituições, como a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em 2001, a Universidade Estadual da Bahia (UNEB), em 2002 e a Universidade de Brasília (UnB) em 2003, antecipando a Lei de Cotas 12.711/2012.
Nesse sentido, há algo nessas provocações que, a meu ver, apontam para as disputas raciais e afetivas inscritas em uma trajetória de lutas históricas sobre a reconfiguração da universidade pública brasileira adensada a partir da implementação da Lei de Cotas étnico-raciais pelos movimentos negros, indígenas, estudantil e, mais recentemente, coletivos de mulheres e LGBTQIA+. Essas disputas raciais-afetivas têm colocado outras possibilidades de diálogos com a universidade pública, como pode ser observado nas publicações comemorativas de aprovação no ensino superior que tomaram as redes sociais (Fig. 01) no início do ano de 2026, um dos movimentos afetivos e raciais que constituem os fluxos audiovisuais em rede da minha experiência e engajamento com a universidade.
Figura 01: Colagem com postagens comemorativas de aprovação no ensino superior público via SISU 2026.

Fonte: Reprodução/Instagram[2]
Reside no processo de observação dessas postagens de celebração o entendimento de quais forças as tornam possíveis e necessárias quando olhamos para as dimensões temporais e espaciais de acesso, pertencimento e transformação às/das universidades brasileiras. São narrativas celebrativas que, por um lado, se conectam ao coletivo como uma articulação política-afetiva por serem, muitas vezes, a continuação de um sonho[3] a ingressar na universidade, como no meu caso. E, por outro, dadas as condições materiais de desigualdade que atravessam o acesso ao ensino superior no país, estas se situam no processo de exclusão racial que as populações negra e indígena foram submetidas desde o pós-abolição, por “todo um pensamento e uma prática político-social, preocupados com a chamada questão nacional” (Gonzalez, 2020, p. 94).
Em outras palavras, estas postagens celebrativas são produzidas nos próprios processos históricos de exclusão racial que inscrevem a construção da nação brasileira, sendo ao mesmo tempo, produtos dessa exclusão e tentativas de transformação dessa estrutura racial. Nesse sentido, estas narrativas celebrativas nos fazem ver que o acesso à educação superior ainda é vivido como exceção, explicitando, até hoje, a persistência de hierarquias sociais e raciais que tornam possíveis a lei de cotas como uma política legítima e necessária na redistribuição de acesso à educação superior. Nas palavras Williams (1979), é o passado operando de maneira residual nas formas do presente. São valores dominantes em disputa a partir dos afetos dispostos em torno da reconfiguração do Ensino Superior construído em torno da aprovação da lei de cotas.
É precisamente nessa tensão que se abrem possibilidades de fissuras, na medida em que estas postagens como pontos privilegiados de observação do fluxo audiovisual em rede (Gomes, 2023; Ferreira, 2021), buscam reconfigurar o projeto universitário criado desde o seu início para atender às demandas das elites dirigentes e intelectuais do país, como expressa Fávero:
Trata-se, sem dúvida, de adaptar a educação escolar a diretrizes que vão assumir formas bem definidas, tanto no campo político quanto no educacional, tendo como preocupação desenvolver um ensino mais adequado à modernização do país, com ênfase na formação de elite e na capacitação para o trabalho (Fávero, 2006, p. 23).
Há outro ponto de articulação que gostaria de ressaltar neste fluxo. O lugar de valor associado à figura materna enquanto afeto vinculado em torno dos corpos dessas mulheres, endereçadas hegemonicamente à estrutura patriarcal-racista, como argumenta Gonzalez (2020). São corpos atravessados pelas violências racistas, classistas e sexistas, cujas condições materiais de vida se organizam na precariedade que perpetuam ciclos de desigualdades, e veem em suas filhas a possibilidade de romperem com essas continuidades, inclusive, em gestos de acolhimento de corpos dissidentes de gênero, em um cenário em que a norma é o abandono familiar, a negação e a invalidação de suas identidades.
A repetição da presença da figura materna nesses produtos audiovisuais não podem ser tomadas a partir de significados óbvios e isolados da conjuntura, pois, a meu ver, dizem de uma posição conjuntural ao atuarem como investimento afetivo que articula a celebração do ingresso às experiências de gênero e raça no Brasil, dando a ver relações de poder que envolvem as lutas identitárias da contemporaneidade. São essas partilhas que me permitem questionar identidades como essência ou a universidade como um fim em si mesma, isto é, para modernização do Estado, estruturação da sociedade, formação profissional ou legitimação das classes dominantes (Cunha, 2007), mas como “espaço de vida onde se garante a sobrevivência étnica, histórica e cultural” (Escobar, 2016, p. 6).
É nesse sentido que essa relação importa para mim como mãe de uma criança negra, vivendo no interior de um estado que passou a ter a presença de uma universidade há pouco mais de 20 anos, fruto da expansão universitária, na interiorização, mas que já sabe desde então que ela existe enquanto possibilidade de uma continuidade coletiva, “a continuação de um sonho”. É nesse sentido, também, que localizo a potência dos afetos ao operar como “força motora para a ação política” (Gomes; Mendonça, 2024, p. 5), ou seja, enquanto engajamentos políticos na configuração de agências e locais de produção que operam na vida cotidiana, construindo sentidos para corpos, identidades e territórios.
À vista disso, ainda que o post e a reflexão de Tania Pierre-Charles no Instagram não tenha sido direcionado à universidade brasileira, passa necessariamente a dialogar com questões políticas e sociais contemporâneas no Brasil, na medida em que aciona o debate sobre as condições sociais e de desigualdades que atravessam as experiências raciais e de gênero no acesso à educação superior no país. Por fim, me parece que, a partir das problematizações colocadas neste texto, não há como falar das ações afirmativas nas universidades públicas sem acionar uma discussão sobre afeto e conjuntura como dimensão de observação dos contextos, relações de poder e produção da realidade (Grossberg, 2010) que constituem o Brasil. Por isso, reconhecer a potência de transformação que a Lei de Cotas tem proporcionado aos grupos minorizados que a acessam, implica reconhecer também a estrutura racial e os elementos históricos que sustentam as desigualdades raciais no país.
LINKS
[1] Disponível em: https://www.instagram.com/clacso_oficial/reel/DWHmYOFCRHZ/. Acesso em: 20 abr. 2026.
[2] Disponíveis em: https://www.instagram.com/p/DVb8Ve3idOx/, https://www.instagram.com/p/DVhCPFPj7xM/, https://www.instagram.com/p/DUjFAHgEVbu/, https://www.instagram.com/p/DWIb27PjPHy/, https://www.instagram.com/p/DUHV9d2gCcy/, https://www.instagram.com/p/DUayVX5kWI-/.
[3] Videoclipe “Continuação de um sonho”, de BK. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kXi-eu1g6dU.
REFERÊNCIAS
CARDOSO, A. C. S. et. al. Lei de Cotas em debate: cobertura jornalística nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo em 2012 e 2022. In.: VALLE, F et. al. Figuras de historicidades [livro eletrônico]: articulações de espaços e tempos. Belo Horizonte, MG: FAFICH/Selo PPGCOM/UFMG, 2025, p. 169-195.
CUNHA, L. A. Ensino superior e universidade no Brasil. In.: VEIGA, C. G; LOPES, E. M. T; FARIA FILHO, L. M. 500 anos de educação no Brasil. 3ª ed. São Paulo: Autêntica, 2007.
FÁVERO, M. L. A. A universidade no Brasil: das origens à Reforma Universitáris de 1968. Educar, Curitiba, n. 28, p. 17-36, 2006. Disponível em: https://www.scielo.br/j/er/a/yCrwPPNGGSBxWJCmLSPfp8r/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 25 jan. 2026.
FERREIRA, Thiago. Transformações de políticas e afetos no Brasil [livro eletrônico]: contextualizando radicalmente junho de 2013 em fluxos audiovisuais. Belo Horizonte, MG: PPGCOM/UFMG, 2021.
GOMES, I. M. M. Consciência afetiva, modificações de presença e fluxo: comunicação e experiência nos estudos culturais. In: Bruno Leal; Carlos Mendonça. (Org.). Teorias da Comunicação e Experiência: Aproximações. 1ed.Cachoeirinha/MG: Fi, 2023, v. 1, p. 41-66.
GOMES, I. M. M.; MENDONÇA, C. M. BENQUERENÇAS DA AMIZADE: o engajamento afetivo para a invenção relacional. 33° Encontro Anual da COMPÓS, 2024, Niterói. Anais do 33° Encontro Anual da COMPÓS. Brasília: Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, v. 1. p. 1-30, 2024.
GOMES, N. L; SILVA, P. V. B.; BRITO, J. E. Ações Afirmativas de promoção da igualdade racial na educação: lutas, conquistas e desafios. Educ. Soc., Campinas. v. 42, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1590/ES.258226. Acesso em: 17 jan. 2026.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
GROSSBERG, L. Under the cover of chaos: Trump and the Bathe for the American Right. Nova Delhi: Orient Blackswan Press, 2010.
SILVA, T. L. G. A. da; MATOS, D. A. Figuras de ousadia para refundar uma cena universitária pluriepistêmica. In: 34° Encontro Anual da COMPÓS, 2025, Curitiba. Anais do 34° Encontro Anual da COMPÓS. Brasília: Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, 2025. v. 34. p. 1-22. Disponível em: https://publicacoes.softaliza.com.br/compos2025/article/view/11334/7871.
WILLIAMS, R. Marxismo e Literatura. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979.