“Ana Paula e Tia Milena formaram a maior dupla da história do BBB”. Começo esse texto com essa sentença hiperbólica que circulou muito nos fluxos audiovisuais que estabelecemos em torno da principal relação do BBB que se encerrou no último dia 21 de abril. Ana Paula e Tia Milena, uma dupla à primeira vista improvável, já que são de classe, raça e localidades distintas (a primeira é uma mulher branca oriunda da classe média alta belorizontina, a outra, negra, de classe popular, nascida em Teófilo Otoni) protagonizaram todas as narrativas dessa edição do reality show.

Tá. Isso todo mundo sabe e já disse, mas por que mesmo um palimpsesto sobre as duas? Porque ao estabelecerem essa relação, ao meu ver, elas colocaram em prática aquilo que Gomes e Mendonça, 2024; Gomes e Janotti (no prelo) têm defendido sobre a amizade promover transformações políticas e afetivas não alcançadas pelo amor romântico, que está muito circunscrito aos limites do capitalismo.

“Apostamos numa política afetiva da amizade como engajamento com a invenção relacional, o que configura uma existência bela. A amizade é, assim, um trabalho, uma tarefa, uma busca por possibilidades de vida transformadoras, um modo de organização afetiva em que intensidades, desejos, tremores, cumplicidades, emergências articulam heterogeneidades e multiplicidades em torno de outras e novas conformações de alianças políticas. A amizade é articuladora de mundos” (Gomes, Mendonça, 2024, p. 19).

Acompanhar a amizade de ambas me permitiu perceber exatamente a possibilidade da articulação desses múltiplos mundos, engajamentos que convergiram numa aliança afetiva que derrotou os adversários – e haters que, em algum momento, passaram a desejar a saída de Tia Milena ou de Ana Paula por reconhecer em uma das duas a possibilidade de vencer a sua favorita. Uma conta que foi frustrada justo porque a maior força de ambas, reconhecida pelo público, estava nessa convivência, originalmente improvável, mas convergente.

Dizem que é sempre um risco aproximar BBB e política, já que é “só entretenimento”; que um “reality show não deve ser levado tão a sério,”, mas aqui no TRACC desenvolvemos pesquisas que buscam compreender as transformações na cultura (suas disputas e reiterações), analisando exatamente os processos comunicacionais e culturais, fluxos audiovisuais, BBB incluído. A partir daí, me arrisco a dizer que a relação de ambas mostra ainda uma via que se abre para a disputa política e afetiva que se avizinha em torno de corações e mentes para a eleição presidencial desse ano. 

Se Ana Paula, que reconhecidamente se apresenta como uma mulher progressista – que discutiu com Nikolas Ferreira em um avião em defesa de uma mulher trans e publicou um vídeo em seu Instagram em defesa do fim da escala 6×1 (ver post logo abaixo) – tem uma aliança com uma participante que alegadamente não tem esse posicionamento ideológico, há algo que desponta para observação das disputas políticas-afetivas deste ano.

O contrário também pode ser dito de Tia Milena que, mesmo tão diferente de Ana Paula, foi capaz de escutá-la, se reconhecer nela, acolhê-la em múltiplos momentos, não estando presa a suas próprias ideias ou ao que diziam sobre sua amiga. É um tipo de relação que explicita as possibilidades de diálogos que podem ser estabelecidos em torno de disputas que se dão na cultura popular, como podemos ver no post do Instagram abaixo replicado pelo Movimento Brasil Popular, um dos movimentos que compuseram o fluxo audiovisual da minha experiência com a amizade entre as duas participantes. 

Gramsci dizia que a disputa pela hegemonia se dá na cultura popular, em que valores e crenças podem ser tensionadas – a passo em que podem também ser reiteradas. A hegemonia opera com cooptação – valores dominantes sendo propagados no convencimento das pessoas – e coerção – ou seja, através da violência de quem domina. Entretanto, abre-se também espaço para a resistência, para fazer plantar certas dúvidas e alianças com quem tem origens, pensamentos e modos de vida distintos dos nossos. As esquerdas precisam compreender o que de fato tem sido vivido na vida das pessoas, não para se adequar a ideias conservadoras, mas sim para, a partir dessa compreensão, ser capaz de dialogar, disputar defendendo suas agendas e transformar o país.

É essa possibilidade de diálogo transformadora que percebemos em Ana Paula e Tia Milena que, na verdade, possuem muita coisa em comum. Mulheres com vivências e trajetórias bem distintas, uma, por exemplo, profundamente ligada à sua família (principalmente, seu pai) e uma que foi deixada em um abrigo junto com sua irmã gêmea e vive hoje cuidando de outras tantas crianças. É esse comum na divergência que parece apontar para aquilo que Gomes, Mendonça e Janotti têm sugerido como potência política e afetiva da amizade. Há muito que celebrar ainda que, em vez de se colocarem como opostas, como por muitas vezes é feito em formatos como esse, Ana Paula e Tia Milena tenham conseguido celebrar uma aliança afetiva, uma amizade entre duas mulheres que, juntas, conseguiram vencer.

 

Referências

GOMES, Itania; MENDONÇA, Carlos. Benquerenças da Amizade: o engajamento afetivo para a invenção relacional. In: ANAIS DO 33° ENCONTRO ANUAL DA COMPÓS, 2024, Niterói. Anais eletrônicos…, Galoá, 2024. Disponível em: <https://proceedings.science/compos/compos-2024/trabalhos/benquerencas-da-amizade-o-engajamento-afetivo-para-a-invencao-relacional?lang=pt-br>. Acesso em: 04 Maio. 2026.

GOMES, Itania; JANOTTI Jr, Jeder. Construindo gestos teórico-metodológicos a partir de um território afetivo: ambiências comunicacionais, fluxos audiovisuais em rede e escuta conexa (no prelo).